Orixá não é Santo

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Escrito por Paulo Rodrigues

Pierre Verger escreveu um clássico: “Orixás: Deuses Iorubás na África e no Novo Mundo”, no qual defendia que essa religião está ligada a uma noção de família numerosa, que se origina de um mesmo antepassado e engloba vivos e mortos.

Orixá não é Santo

Para o autor, o orixá seria, em princípio, um ancestral divinizado que durante sua passagem pela terra estabeleceu vínculos que lhe asseguraram um controle sobre fenômenos da natureza, como o raios e trovões, as águas dos mares, rios e das chuvas, as árvores, pedras e minérios. Bem como o domínio de importantes atividades sociais, como a caça e a pesca, a metalurgia, o exercício do poder, a guerra, a maternidade, a agricultura.

Quando se considera essa noção de ancestral divinizado, é bom que se diga que realmente todos os orixás tiveram sua passagem pela terra. Foram portadores de um enorme axé pessoal. Foram reis e rainhas, grandes guerreiros e guerreiras, caçadores, sacerdotes, curandeiros e feiticeiros, pais e mães.

Foram homens e mulheres que, pela magia dos seus feitos, bravura, bondade, justiça, retidão, destemor, astúcia e outros predicados, não se submeteram à morte, encantando-se como divindades, como deuses que se personificam nas forças vivas da natureza. Os orixás são o poder que sustenta toda a existência e a vida na terra.

São perfeitos? Não, são humanos. Portanto, embora tenham sido associados a santos católicos por força do sincretismo, os orixás jamais podem ser enquadrados na lógica cristã, nem mesmo compreendidos dentro dos padrões ocidentais.

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São divinos, mas estão longe de ser santos, pois experimentaram a vida, seus prazeres e suas dores. Amaram e odiaram. Entregaram-se a paixões desenfreadas. Lutaram guerras sangrentas. Cometeram e corrigiram injustiças. Acertaram e erraram. Todos os orixás detêm um poderoso axé. O domínio que exercem sobre a natureza é o reflexo das histórias que viveram e que possibilitaram tornar eternos os seus atos.

Ogum, rei de Irê e senhor da guerra, tornou-se orixá ao perceber que em um momento de cólera irrefletida acabou por massacrar todos os habitantes de sua cidade. Foi tomado por um profundo arrependimento e decretou que, por cometer tamanha atrocidade, não merecia mais viver. Fincou duramente sua espada no solo e, quando o chão se abriu, desapareceu sob a terra e renasceu como orixá.

Todas as divindades do panteão ioruba passaram por processos semelhantes. No momento de sua “morte”, ou seja, quando o sopro se desprendeu do corpo, o que restou foi o axé em estado de energia pura, que acabou eternizado ou se encantando num fenômeno da natureza.

Mesmo Oxalá, o grande orixá da criação, falhou em sua missão de criar o mundo. Por falta de humildade, recusou-se a fazer as devidas oferendas a Exu, o primogênito do universo, e no momento de cumprir sua tarefa foi acometido por uma sede sem fim e, furando o tronco de uma palmeira, sorveu a seiva e embriagou-se.

Odudua, o herói civilizador, tomou para si a missão e criou a terra. Como consolo, Oxalá recebeu a incumbência de criar os seres humanos, mas não observava suas restrições à bebida, e por vezes criava seres defeituosos. Portanto, até Oxalá, o mais elevado dos orixás, cometeu suas falhas, está longe de ser perfeito, mas tem sua divindade reconhecida e respeitada por todos.

Do alto de sua sabedoria, com quase um século de vida, Mãe Stella de Oxóssi, ialorixá do Axé Opô Afonjá, de Salvador, nos ensina que a vida é boa e gozá-la convém. Os orixás sabem disso, pois seu grau de humanidade vai muito além da capacidade de ser bondoso ou generoso, compreensivo ou tolerante, que, aliás, são valores que preconizam e apreciam.

Orixás são humanos por serem passíveis e passionais, são como nós e por isso nos entendem, nos aceitam e nos amam.

Orixá não é espírito em evolução nem anjo da guarda. E nesses tempos de crescente intolerância religiosa, de desrespeitos desmedidos à legislação e até mesmo a cláusulas pétreas de nossa Constituição, é bom que se ratifique que orixá não é demônio.

São as divindades do candomblé. São deuses e deusas que sobreviveram à escravidão e se mantiveram na diáspora. Os orixás vivem em seus filhos e filhas, nesses fiéis que entregam seus corpos ao transe e tornam tangível o axé divino. Deuses humanos, plenos de compreensão e humildade. Deuses que ajudam, mas também dão as costas, pois um orixá não veio ao mundo pra fazer nem o bem nem o mal. Veio para fazer o que é justo.

Artigo recuperado: cartacapital.com.br 

Sobre o autor

Paulo Rodrigues

Apaixonado pelo mundo místico e o místério das simpatias. Mestre de Reiki e pesquisador ativo em paranormalidades. Com o propósito de ajudar as pessoas na busca do autoconhecimento.

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